ESTRANGEIROS EM SEU PRÓPRIO PAÍS

– De onde você é?
– Sou daqui, da Alemanha, de Berlim. Sou alemão.
– Mas qual é a sua origem? (preta é a cor da pele dele).
Essas duas – simples – perguntas são constantes na vida do teuto-cubano de quase 2 metros de altura, Enrique Baumgarten, como ele mesmo diz, desde que nasceu.
Voz rouca, olhar penetrante, o moço saca a cigarreira de prata, charmoso, aparentemente nervoso, acende o cigarro. Apesar de expressar um grande interesse por história, a sua própria é um ponto de interrogação.
O pai, de Havana, estudara em Leipzig ou Berlim (não sabe ao certo), nos idos de 1966. Cuba fazia parte então da União dos Estados Socialistas.
“Esse cubano conheceu uma jovem, possivelmente eles casaram e tiveram um filho; que sou eu. Então, ele foi chamado de volta a Havana, e deixou a esposa. Ela, sozinha, com três filhos (brancos), me deu para um orfanato.” O menino seria logo adotado pelos Baumgarten e só veria o pai uma vez antes de completar 18 anos.
Exatamente 21 anos depois, Enrique se considera totalmente integrado. Fala alemão fluentemente, com um forte sotaque berlinense, e trabalha há dezenove anos como técnico de manutenção. Enquanto transita, sem transtorno, de um lado para outro, no entorno da cidade, o alemão-negro, nascido e educado na velha Alemanha Oriental, República Democrática da Alemanha (RDA), é aceito como nativo. Basta, no entanto, atravessar a fronteira do seu espaço cotidiano e acessar as outras Berlins para ver que a sua imagem não refl ete as características que definem um alemão.
Muito embora conviva com a questão migratória há mais de quatro séculos (depois do despovoamento e da devastação da Guerra dos Trinta Anos, franceses, holandeses e judeus foram bem-vindos para reconstruir Berlim), a cidade sofre uma enorme crise de identidade. As causas, a Segunda Guerra Mundial e, em seguida, a Guerra Fria, tiraram a sua posição de coração da Europa para isolá-la às sombras da Cortina de Ferro. Antes da reunificação, há registros de que cerca de 500.000 estrangeiros já viviam na parte ocidental, mas somente em 1998, no governo Schröder, é que a sociedade alemã começou a assumir os imigrantes. Até então, essas pessoas eram rotuladas como estudantes, trabalhadores contratados, asilados, refugiados econômicos. Segundo a antropóloga Christiane Pantke, os alemães sempre precisaram de trabalhadores, mas não estavam preparados para receber seres humanos.
Aqueles que chegaram na parte oriental com o título de trabalhadores contratados viviam isolados em colônias. Os relacionamentos amorosos eram terminantemente proibidos. Tudo para evitar a procriação. É sabido que muitas mulheres tiveram de abortar seus filhos, devido ao não cumprimento dessas regras.
Esse não foi o caso de Kim Oanh Respondek. Em 1986, a RDA e o Vietnã alteraram as normas do contrato, incluindo a possibilidade de receber pessoas que já possuíam famílias. Assim, Kim deixou seus dois filhos e seguiu para a Alemanha, com a esperança de poder buscá-los. Passados dezenove anos, Kim ainda espera ter os filhos em sua companhia, que já não são mais crianças. Voltar ao Vietnã, impossível. Se sentiria tão estrangeira lá quanto é aqui. Está perdida em algum lugar, mas garante que, depois de todos esses anos na Alemanha, ainda não chegou.
Apoiada por uma assistente social, Tamara Hentschel, Kim tenta reconhecer as mudanças que houve após a reunificação. Difícil. A queda do muro não solucionou os problemas dos vietnamitas. Em alguns casos, piorou. Agora não há mais ninguém para ajudá-los a resolver os obstáculos que a cidade impõe com a sua intolerância e resistência em aceitar os quase 500.000 imigrantes. Embora 183 nações estejam representadas na capital da Alemanha, Tamara acredita que esse chamado multiculturalismo não passa de moda. Caras, cores, religiões e sobrenomes diferentes em um mesmo lugar podem ser um fator de multiculturalismo, mas paralelo. Até ela, na pele de alemã oriental, ainda não se sente, nesse país unifi cado, integrada. E Kim como se sente então?
Quando ela fala o idioma, tem dificuldade para ser compreendida. A sua origem, às vezes, não permite que compartilhe do mesmo espaço que os alemães no elevador.
Mas os problemas não se encerram na vida pessoal de uma única pessoa. Devido à comunidade vietnamita ser minoria em Berlim (num total de 30.000, entre legais e ilegais), eles não se sentem representados. A falta de assistência já levou muitos à morte, pela impossibilidade de se comunicar com o médico.
Com medo e sem perspectivas, eles chamam a atenção do governo, que parece não distinguir as diferenças de cada etnia. O que é conveniente para os turcos, que representam o maior grupo de imigrantes, para os vietnamitas é contraprodutivo. A necessidade de cuidados específi cos não significa que eles estejam satisfeitos com o comportamento do governo que defi ne diferentes direitos e deveres entre a população da Alemanha. Nas palavras do comissário da pasta especial para Integração e Migração, Andreas Germershausen, um dia – não ousou supor quando – as organizações para migrantes não serão mais necessárias. A estratégia adotada por Germershausen é fazer com que essas pessoas adquiram cidadania a fim de se tornarem eleitores. Enquanto isso, as instituições alemãs fi ngem não ver que 30 por cento das crianças que freqüentam as escolas têm origem migratória.
O diretor da ONG VIA, Holger Förster, vai mais longe quando declara: “É necessário que se entenda que essas pessoas estão aqui e vão ficar. Não se pode simplesmente mandá-las embora. Não interessa quais leis de antiterrorismo serão criadas.”
Förster sonha como seria bonito se as pessoas pudessem admitir que Berlim, até por sua posição geográfi ca, sempre foi uma cidade de imigrantes. A começar com os huguenotes (protestantes franceses) até a comunidade russa, que chegou aqui sobretudo na década de 20, como resultado da Revolução de Outubro. “É excitante pensar em toda essa interculturalidade.”
Infelizmente, a realidade é que os alemães, antes de assumir essa identidade multicultural que invade as ruas com a gastronomia mundial e que se afirma na música tecno, ainda precisam definir a si mesmos como nação.
Como conseqüência, a Alemanha tem de lutar contra uma xenofobia que é em parte racista e em parte tem a sua origem na ideologia da direita radical, a qual é escondida, mas ainda sobrevive à pressão dos promotores de justiça que forçam os neonazistas a deixar os cabelos crescerem, pendurar a jaqueta de couro e deixar as botas pretas no armário de casa.
O jovem Denis, de 18 anos, concorda. “Não preciso usar certas roupas e dizer ‘Heil Hitler’ para preservar minha ideologia. Também não quer dizer que tenho de aceitar tantos estrangeiros no meu país sem falar o meu idioma e ainda por cima desempregados.”
O jovem nacional-socialista vive o dilema – que ironia! – de ter negros em sua própria família. Fato que prefere não confessar aos amigos. “Afinal de contas“, explica-se, “não é minha culpa. Meu pai e minha mãe são brancos”.
O que não entra na cabeça de Denis são as fronteiras que dividem a sua cidade. Embora tenha curiosidade, ele não pode se aproximar de Kreuzberg, bairro onde a maioria dos estrangeiros vive. Assim como também os imigrantes não ousam pisar as cercanias dos bairros onde o ser alemão é ainda definido pelo sangue.
Apesar de participar assiduamente de brigas de rua, pelo menos, até hoje, o menino não matou ninguém. Entretanto, de alguma forma, boa parte da população berlinense tranqüiliza-se por saber que essas manifestações nazistas não passam de acontecimentos distantes do seu dia-a-dia.
A brasileira Neia Abreu-Sonntag, de 30 anos, em Berlim desde 1998, afirma que sofreu menos preconceito aqui do que no seu país. “Sinto-me muito melhor na Alemanha. No Brasil, o preconceito é camuflado. Aqui, se alguém não gosta de mim, fala na cara.” Como negra, Neia acredita que teve muito mais oportunidade de crescer em Berlim do que teria se tivesse fi cado em Campinas. Sente saudade, diz que tem muito orgulho da sua origem, mas, se é para falar de “cor da pele”, a questão no Brasil é muito mais complicada.
Mesmo com o fardo do anti-semitismo na história de seus ascendentes, o diretor do Centro Judaico de Berlim, Hermann Simon, também não deixaria Berlim por nada. “Com todas as difi culdades, acredito que estamos no caminho certo. Se alguém decidir viver aqui de acordo com as leis e a cultura judaicas, é possível. Esse é um país livre. Eu acho que é…”

Meyre Anne Brito é jornalista. Colaborou Sigi Fischer.

CAROS AMIGOS MARÇO 2006 19


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