a copa do mundo e o exército alemão
O medo e a neurose por segurança reavivam na Alemanha questões enterradas no pós-guerra
As marcas da guerra estão por todo lado. Os resquícios da Alemanha nazista dos anos 30 e 40 ainda podem ser vistos nos prédios cinzas esburacados pelos projéteis ShKAS e MG17 dos exércitos russo e alemão, nas freqüentes bombas descobertas quando casas são construídas, no olhar triste e cansado de um passante que caminha titubeante pelas ruas de Berlim, na alimentação ponderada da família alemã, no gosto pela sopa aguada de batata, na consciência – por vezes exagerada – da escassez de recursos naturais e até nos refl exos intuitivos desse povo.
Outra conseqüência de uma das maiores bestialidades cometidas contra a dignidade humana pelo 3o Reich foi a exigência das forças aliadas (EUA, Inglaterra e França) de separar as responsabilidades do exército das tarefas da polícia, no momento em que a nova constituição da República Federal da Alemanha era elaborada. Para prevenir a centralização de um poder potencial forte, os assuntos policiais fi caram sob o comando dos Estados. Houve mais uma restrição: a separação do serviço secreto da polícia; nunca mais a Alemanha teria uma Gestapo (polícia secreta).
As atribuições das forças armadas restringiram-se então à defesa do país e ao controle de suas fronteiras, sem qualquer possibilidade de agir em questões internas. Todos os assuntos de segurança dentro do país foram delegados à polícia estadual.
Na onda de movimentos estudantis de 69, que invadiu as ruas do mundo com manifestações socialistas, comunistas e até de paz e amor, dos hippies, o país caiu na tentação de usar os soldados a fim de abafar os gritos de indignação das massas.
Naquele tempo, tanto os políticos quanto a sociedade estavam muito preocupados com o poder que o exército poderia conquistar.
Os anos passaram. Hoje, o desempenho das forças armadas, no que concerne aos dramas que comovem os alemães, ganhou a confi ança da população; seja no que tange às catástrofes naturais ou a desastres como o de 1998, quando um trem-bala perdeu o controle, causou a morte de 101 passageiros e deixou mais de 88 feridos. A atuação do exército nesse caso, com o apoio de médicos e psicólogos, assegurou de vez a imagem positiva da instituição. A preocupação expirou com o tempo. No seu lugar fi cou a credibilidade. Mas, na lei dos homens, paz tem prazo de validade. É um produto perecível.
A Copa do Mundo e os ataques terroristas são elementos perfeitos para os atores do partido conservador da Alemanha, o CDU, entrarem em ação. A missão é alterar a estratégia de segurança. Trocando em miúdos, o ministro do Interior, Wolfgang Schäuble, e seus coleguinhas pretendem pôr abaixo o muro que divide as instâncias da polícia estadual e federal, do serviço secreto e do exército.
O ministro do Interior – que é também do Esporte – acredita que a fronteira entre segurança interna e externa tornou-se obsoleta. Schäuble profecia tragédias caso as forças armadas não possam ser utilizadas em conjunto com a polícia estadual no mundial de futebol. O fato é que, de acordo com a Constituição, o exército alemão não pode executar tarefas essencialmente policiais. A ele só é permitido prestar serviços nos quais nenhum tipo de arma seja utilizado. O duplo ministro não pretende colocar os soldados com metralhadoras na frente dos estádios para assustar os torcedores. Ele os quer pelas ruas, ao alcance das mãos, para aliviar o trabalho da polícia, a qual, em sua opinião, estará sobrecarregada. E isso, em parte, o poderoso ministro já conseguiu. Entre os 7000 soldados que vão se dedicar a vigiar o espaço aéreo, vistoriar os estádios, em caso de substâncias biológica e química, e prover recursos médicos e sanitaristas, uma unidade militar de elite estará em situação de alerta.
Do outro lado do cabo-de-guerra, o especialista em questões de segurança do Partido Verde, Wolfgang Wieland, avisa que essa idéia de Schäuble nasceu há mais de dez anos. É um projeto antigo dos conservadores. “A primeira vez que ele tentou alterar a Constituição, com o propósito de usar os militares dentro do país, foi no início dos anos 90, quando os asilados curdos bloquearam uma rodovia para reivindicar a garantia de seus direitos. Um tópico totalmente diferente do que Schäuble explora agora.“
Mesmo com o ataque terrorista dos palestinos à delegação israelense na Olímpiada de Munique, a Copa de 74 ocorreu sem um incidente sequer. Três décadas depois, os alemães se apóiam nas experiências do passado e se consideram mais do que preparados para sediar o campeonato futebolístico sem grandes transtornos. Wieland está seguro de que a única ameaça previsível nesta Copa do Mundo é o hooliganismo, o qual ocorre em todo e qualquer evento esportivo de grande porte da Europa. E isso não é nenhuma novidade para a polícia, que enfrenta essa situação todos os fins de semana nos torneios deste continente. Além disso, segundo o especialista do Partido Verde, não há qualquer indício de terrorismo. Ainda assim, se houver, o oponente não será um país, mas um grupo independente. Fator que não configura a presença de militares.
Neste ponto, o diretor da Associação das Forças Armadas, o coronel Bernhard Gertz, concorda com a posição de Wieland. Ele acrescenta, no entanto, que não há tempo útil para alterar a lei com a intenção de atender aos caprichos do ministro do Interior. Outro agravante é que no momento o exército é incapaz de trabalhar sob as leis policiais divergentes em cada um
Ainda assim, Gertz aponta os problemas enfrentados pela polícia alemã. A deficiência na comunicação com os outros órgãos de apoio é um dos principais. Os departamentos de polícia da Alemanha e da Albânia são os únicos em toda a Europa que ainda não possuem o sistema de rádios digitais. “Em uma tragédia, todos os envolvidos devem ser capazes de se comunicar; uma condição até hoje não alcançada.“ O militar critica as prioridades da polícia estadual. No últimos anos, gastou-se muito com a aquisição de novos uniformes e carros prateados, para substituir os modelos verde e branco, em vez de manter o emprego de 7.000 oficiais dispensados desde o 11 de Setembro. No lugar de Schäuble, Gertz exigiria que os Estados cumprissem no mínimo com as necessidades básicas para garantir a seguranca da população. Porém, do ponto de vista legal, o coronel Gertz questiona a intenção do polivalente ministro de redelegar as tarefas da polícia ao nível federal.
“De forma alguma, os militares podem se envolver em assuntos de segurança civil. É inconstitucional.“ Schäuble, por sua vez, insiste na possibilidade de usar as forças armadas. Uma saída para o ministro seria utilizar as lacunas que a Carta Magna oferece para interpretar os artigos a seu bel-prazer (a nossa conhecida maracutaia).
Claro que o ministro é um defensor ardoroso das limitações da Constituição. É por isso que ele preferiria alterar o artigo referente às funções do exército antes de ter de responder perante o Estado por decisões tomadas em caso de emergência. Em uma situação de crise, o teimoso ministro é adepto convicto da palavra de ordem: a urgência desconhece o dever.
Mas nessa discussão quem leva em consideracão aqueles que dão aos políticos as suas tão desejadas posicões?
O ex-promotor de justiça e atualmente editor do caderno de política do diário Süddeutsche Zeitung, Heribert Prantl, ressalta que a sociedade alemã conhece bem a tensão entre liberdade e segurança. Para o jornalista, a escolha de um povo por segurança total resultará na perda da liberdade. E, segundo ele, os cidadãos alemães não estão dispostos a pagar esse preço. Quanto à discussão política, Prantl considera a presença do exército germânico nas missões internacionais um passo importante para a paz no mundo. Mas colocar militares armados dentro do próprio país… Mesmo Schäuble teria dificuldades de ver nessa suposta volta aos modelos do passado um processo em nome da paz.
Meyre Anne Brito é jornalista
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- Published:
- 775UTCWed, 22 Nov 2006 17:36:16 +0000quarta-feira3611 22. novembro . 2006 / 5:36 pm
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- Caros Amigos, Internacional
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