NO AR: As palavras
Uma manhã como muitas outras por esses lados. Acordo, ligo o rádio, escovo os dentes. De repente, uma voz conhecida desperta-me de um estado de abstração, próprio dos que se expõem a um diferente idioma por muito tempo. Era língua portuguesa no ar (ou língua brasileira, como muitos europeus a denominam). Era o Frei Betto na Deutschland Radio.
Apesar do tema, a voz do multivalente frade dominicano soava aos meus ouvidos tão macia. Mesmo abafados sistematicamente pela narração de seu interlocutor, o correspondente alemão Klaus Hart, todos aqueles “esses” sibilados de forma tão sutil enchiam de significados a minha cozinha vazia.
Peles queimadas por pontas de cigarro, facas enfiadas embaixo de unhas, cabeças mergulhadas em baldes d’água, eletrochoques. Frei Betto falava de tortura no Brasil. Pauta difícil, triste, perturbadora. Parte do passado, do presente e, se não assumirmos, do futuro do País chegava aos meus ouvidos na Alemanha!
Além dos questionamentos e indignações, estava frustrada. Perguntava-me por que não há no Brasil uma rede pública nacional de rádio e televisão com poder descentralizado, com um variado e alto nível de programação, com setoristas e correspondentes, tal como Hart, que, no Brasil por quase 20 anos, conta aos curiosos e exigentes ouvintes alemães e austríacos as formosuras e as feiúras de nossa terrinha. Seria o Brasil uma exclusividade? Não. Aqui, notícias e peculiaridades do mundo inteiro estão ao alcance de todos. Coisas do Primeiro Mundo? Seriam os ouvidos emergentes menos interessados em novos conhecimentos, informações, sabedoria?
Hart acredita que há espaço para mais quando observa os brasileiros acima da média sintonizados nas escassas opções que oferecem informação, como a CBN, e boa música, como a Cultura FM.
“Es fehlt hier eine ARD brasileira mit einem großen Korrespondentennetz, es fehlen Radios wie Deutschland Radio Kultur und Deutschlandfunk. Kommerzielles Radio, das sich möglicherweise an nordamerikanischer Machart orientiert, dominiert”. Em português claro, Hart é da opinião de que um sistema de comunicação como a ARD, com a sua grande rede de correspondentes, de rádios como a Deutschland Radio e a Deutschlandfunk, fazem falta aí no Brasil. “O que há com fartura são as rádios comerciais possivelmente orientadas pelo modelo norte-americano. Estas, sim, dominam”.
O que nos leva à tradicional discussão midiática do ovo e da galinha tão complexamente debatida pela escola frankfurtiana: o ouvinte/telespectador influencia ou é influenciado?
O que interessa no momento é que, no caso em questão, o mérito do vasto conhecimento disponível ao povo vai para os órgãos de comunicação europeus que, em geral, tomam para si a responsabilidade de saciar a fome de cultura da sociedade com notícias e grandes reportagens e, mais ainda, de exercitar a imaginação do ouvinte com obras ficcionais excelentemente bem feitas.
Muito mais do que aculturados no modus vivendis americanóide e seus hits banais, aqui as palavras flutuam no ar, reconstroem histórias, países e paisagens em diferentes cores e formas e ampliam o mundo desses privilegiados.
Frei Betto, um guerreiro incansável, luta anos a fio pela paz e, entre outros direitos do povo, pela reforma agrária (a qual na Alemanha foi realizada no séc. XVI). Alô, alô, empresários da radiodifusão brasileira: além da agrária, o Brasil precisa de muitas outras reformas.
About this entry
Você está lendo “NO AR: As palavras,” uma entrada em "EXTRA, EXTRA!"
- Published:
- 810UTCWed, 22 Nov 2006 18:26:54 +0000quarta-feira2611 22. novembro . 2006 / 6:26 pm
- Categoria:
- Imprensa
- Tags:
1 Comentário
Pular para o formulário de comentários | RSS de comentários [?] | URI de trackback [?]